Vertalingen uit het Portugees

Portugees 1

Menina e moça me levaram de casa de minha mai para muito lonje. Que causa fosse entam daquella minha levada, era ainda piquena, nam a   soube. Agora nam lhe ponho outra, senam que parece que jaa entam avia de ser o que despois foi. Vivi alli tanto tempo quanto foi neseçario   para nam poder viver em outra parte. Muito contente fui en aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espacio se mudou tudo aquilo   que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desanventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas coussas trocadas por outras, e o prazer feito magoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e cuidados [ha hi] algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a mingoa da conversaçam da gente fosse como ja pera meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos   quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que elle nam deu a ninguem. Estando eu assi soo tam longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde nam vejo senam serras que se nam mudam de hum cabo, nunca, e doutra agoas do mar que nunca estam quedas, onde cuidava eu jaa que   esquecia a desaventura porque ella e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, nam deixamos en mi nada em que pudese achar lugar nova magoa;   antes tudo avia muito tempo, como ha, que he povoado de tristezas, e com rezam. Mas parece que das desaventuras ha mudança para outras   desaventuras, que do bem nam a avia para outro bem. E foi assi que por caso estranho fui levada em parte onde me forem diante meus olhos   apresentadas em coisas alheas todas as minhas angustias, e o meu sentido de ouvir nam ficou sem sua parte de dor. Alli vi entam na   piedade que ouve de outrem, camanha a devera de ter de mim, se nam fora demasiadamente mais amiga de minha dor do que parece que foi de   mim quem me he a causa della. Mas tamanha he a razam por que sam triste, que nunca me veo mal nenhum que eu jaa nam andasse em busca delle. Daqui me veo a mim parecer que esta mudança em que me eu agora vejo, jaa a eu entam começava a buscar, quando me esta terra onde me ella aconteceo, aprouve mais que outra nenha para vir nella acabar os poucos dias de vida, que eu cuidei me sobejavam. Mas em isto como em as outras cousas tambem me enganei: que agora jaa ha dous annos que estou aqui e nam sei ainda tamsomente determinar pera quando me aguarda a derradeira ora. Nam pode ja vir longe. Isto me pos em duvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi. Mas despois, cuidando comigo, disse eu que arecear de nam acabar de escrever o que vi, nam era cousa para o deixar de fazer, pois nam avia de escrever pera ninguem senam pera mi soo, ante quem cousas nam acabadas nam avia de ser novo: que, quando vi eu prazer acabado ou mal que tivesse fim? Antes me pareceo que este tempo que ei-de estar assi   em este hermo (como ao meu mal aprouve), nam o podia empregar em cousa   que mais de minha vontade fosse. Pois Deus quis, assi minha vontade seja.

(c) Ruud Ploegmakers 2017