Vertalingen uit het Portugees

Portugees 22

Deixemos aqui as cousas de Lamentor, que foram muitas e estremadas que elle fez, pello muito que a Belisa queria, porque, como este conto seja dos dous amigos, agravo se lhe faraa grande, ao muito que delles ha pera dizer, gastar-se en outrem parte alga do tempo. E torno-vos ao cavaleiro que saio da tenda tam triste, que nam pôde alongar-se muito dalli, e apeando-se, assentou-se ao pee dhum freixo que acerca daquelle ribeiro e da ponte estava; e por cuidar mais aa sua vontade, mandou ao seu escudeiro arredado dalli, que dese de comer ao seu cavalo ribeira daqueste rio; que logo se temeo de o elle ver assi, e cair en alga sospeita que fosse contar a Aquelisia (que era aquella por quem viera alli, como ouvistes), porque muito lhe eram todos os seus afeiçoados; que como ella quisese a elle grande bem, a elles nam se podia ter que lho nam mostrase todo nas obras; donde nascia hirem-lhe a ella com tudo o que elle passava, e assi o que ella fazia por bem lhe saia aas vezes por mal, que pera camanho bem lhe ella queria, nam podia deixar d’ouvir pelo tempo cousas que a magoassem; nem tambem elle nom nas podia deixar de fazer, pelo pouco que lhe queria, como de feito assi por derradeiro lhe foi causa a ella de triste fim. Mas assentado o cavaleiro ao pee do freixo esteve por longo espaço revolvendo muitas [cousas] na fantesia; que, quando se alembrava do que Aquelisia lhe queria, parecia-lhe sem-razam deixa-la; por outra   parte, depois lembrando-lhe de quam bem lhe parecera Aonia, parecia desamor nam lhe querer bem. Tinham-no assi antr’ambas fermosura e obriga_am, a ver quem o levaria; mas por derradeiro pôde mais a de mais perto. Soia a dizer meu pai que fora vencida a obrigaçam, como cousa que lhe nam vinha de direito o pago no amor, e vencera a fermosura, como quem de soo a ver se pagava.   Era Aquelisia, ha das duas filhas a que sua mai soo mais que a ssi queria, de boa fermosura, mas obrigou tanto a este cavaleiro com cousas que fez por elle, que o emdevidou todo nas obras. Nam lhe deixou nada tam sois pera que lhe devesse a fermosura. Parece que lhe queria tamanho bem,   que nam sofreo a tardan_a de o hir obrigando pouco a pouco: deu-se-lhe   logo toda. Obrigou-o asi, mas nam no namorou.   Coitadas das donzellas que, porque vem que as namoram os homens com   obras, cuidam que assi tambem se devem elles namorar. E he muito pelo   contrairo, que aos homens namoram-nos [os desdens presumptuosos]: apos   ha brandura d’olhos, aspreza muita d’obras. Isto de seu natural lhe   deve vir serem tam rijos, que parece nam terem em muito senam no que   trabalham muito. Nos outras, brandas de nosso nascimento, fazemos   outra cousa; porem, se elles com nosco entrasem a juizo, que razam mostrariam por si? Ca o amor, que he, se nam vontade? Ella nam se dê nem toma por força, mas, como seja, ou pola desaventura das molheres   ou ventura dos homens sentença he dada emcontra: que a elles prenden-os esquivanças, e boas obras a ellas. E esta soo maneira poderem ter pera os namorarem senam forem namoradas delles. Mas ao amor, quem lhe pora lei?

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