Vertalingen uit het Portugees

Portugees 23

Porem este desagradecimento, que he o seu nome verdadeiro, trouve muitos a desaventurados fiins como vereis neste cavaleiro em que falamos. E nam foram vãos os rogos que Aquelisia fez, com as mãos erguidas aos ceos pedindo delle [vingança]. Com tudo asentou elle per derradeiro de a deixar; porque allem [de lhe] parecer a senhora Aonia a mais fermosa cousa que vira, pareceo-lhe tambem que por vir de longes terras, e ser naquella estrangeira, que mais azinha averia o seu amor. Esta esperança, ainda que bem visse elle que era de longe, com tudo grande ainda foi entam pera acabar de confirmar, ou de fazer muito grande o bem que lhe queria, porque isto vai, como quando algum emparo tolhe o Sol: se o toma em cheo, he muito maior a ssombra que o amparo que a faz. Assi os que bem querem, por quanto as esperanças, por pequenas que ellas sejam, se tomam sempre en cheo, ou parece que tomam, os estorvos que tolhem a cousa bemquista, fazem o amor muito maior do que ellas sam, donde vem depois nacer os cuidados que com a morte ou longa tristeza se posuem, como foi neste cavaleiro que jaa nam cuidava senam como se apartaria de seu escudeiro, de maneira que, depois d’apartado, lhe nam cauzasse suspeita alga daquelle lugar, pera elle mais aa sua vontade gozar delle. E desejava tanto este apartamento, porque sabia elle que avia de sofrer mal ver-lhe leixar Aquelisia; que era da criaçam della e lho dera pera o   acompanhar, e nunca lhe al elle dizia senam que a devia tomar em matrimonio, porque era d’alto sangue, e herdava terras onde elle podia repouzar os derradeiros dias de sua vida que nam leixam tomar armas com honra. Mas em fim cuidando o que determinou chamou-o, e fazendo-lhe hum razoamento largo, antre outras cousas lhe disse que lhe nam parecia bem ser elle mesmo o que levasse aa senhora Aquelisia a nova d’aventura que nam achara vindo por amor della; mas que seria bem levar-lha elle, e disse-lhe que de sua mofina quisera elle mesmo que outrem fosse o portador; que pera ella nam podia elle hir em companhia de novas tristes; e que o esperaria no castelo que perto dalli estava, até tornar-lhe a trazer recado se queria ella pôlo noutra aventura, pois aquella assi se nam podera acabar.
Partindo-se o escudeiro com o recado, enganado elle [e] pera de quem o levava, ficou o cavaleiro soo, e começou a entrar em pensamentos de como mudaria o nome pera que nam fosse sabido onde estava, nem se podese saber pera onde hia; que tanto se ensenhoreou naquelle pouco tempo o   amor delle, que a si mesmo queria jaa em parte leixar. Mas lembrando-lhe nisto que noutro tempo lhe dixera hum adevinhador que, quando elle mudase a vida e o nome, seria pera sempre triste, ficou hum pouco mais cuidoso; mas tornando logo fazer menos conta daquellas cousas como incertas, e com tudo nam querendo hir de todo contra ellas per outras muitas que tinha ouvidas, cuidou de trocar as letras do seu nome, de maneira que assi nam no mudaria nem atentaria os fados. Mas elle nam vio que isto era engano tambem dos fados. Elle estando assi neste pensamento, acertou-se acaso que hum mateiro vinha do mato pelo caminho que hia ter aa ponte, e vinha em cima da besta como deitado, malcuberto com hum enxalmo. Parece que andando elle despido cortando a lenha, ateara-se-lhe algum fogo por todo o seu vistido e queimara-lho; entam elle, por lhe querer acudir, descuidara de si, e o fogo fizera-lhe algum nojo por partes de seu corpo. E direito do cavaleiro topou com outro mateiro que pera o mato hia, que lhe perguntou vendo-o vir assi sem lenha, que pera que fora ao mato. Respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego estas soos palavras: Binmarder. Olhou o cavaleiro pelo barbarismo das letras mudadas na pronunciaam  do b por v e pareceo-lhe misterio; porque elle tambem naquelle se fora arder, e quis se chamar assi dahi avante.

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